Em Campolide há quem rentabilize o seu amor pelos animais. É o caso de quatro mulheres que se juntaram para cuidar de uma colónia de gatos de rua, identificada e intervencionada pela nossa Junta de Freguesia e pela Câmara Municipal. Dois novos ingredientes são adicionados à vida destes felinos: carinho e proteção.

Fotos: Mariana Branco | Texto: Diana Correia Cardoso

Eram nove horas da manhã e o sol já aquecia o abrigo da pequena colónia dos Gatinhos do Parque, uma das 40 colónias existentes na freguesia de Campolide. A tranquilidade do verão reflete-se no abrandamento do movimento nas ruas. Sinónimo de férias para inúmeras pessoas, esta época do ano pode ser particularmente injusta, quer para alguns animais de estimação, quer para animais de rua.

Este é apenas um pormenor para os quatro gatinhos da colónia que já aguardavam pela primeira refeição do dia. Seja qual for o dia ou estação do ano, o grupo de WhatsApp das suas quatro cuidadoras continua ativo. São todas vizinhas e moram perto do parque de estacionamento da rua General Taborda, onde se localiza o abrigo. A cada uma corresponde um turno, mas conforme as necessidades, vão revezando entre si.

Nesta manhã, foi a vez de Rogélia Neves alimentar os felinos. A perda do seu gato, em abril do ano passado, coincidiu com a descoberta da colónia. A tristeza que sentiu levou-a aproximar-se dos gatos e a passar mais tempo com eles. A cuidadora de 71 anos foi das primeiras do grupo a aperceber-se da presença dos pequenos patudos, perto da frutaria de Isabel Baptista. Lá começaram a alimentá-los. Ana Dias e Rosa Pereira, sensibilizadas com a situação resolveram mobilizar-se. “Já eram clientes, mas agora somos mais amigas. Os gatinhos juntaram-nos um pouco mais”, comenta Isabel Baptista.

Pensa-se que tenham nascido naquela zona, em prédios devolutos. Um deles foi identificado por Cátia Costa, a detentora do pelouro de Bem-estar Animal e Defesa do Meio Ambiente, da Junta de Freguesia de Campolide. Tinham dois ou três meses, na altura, sendo que a captura para esterilização foi realizada mais recentemente.

Mel, a pequena cadela de Ana Dias, foi essencial nesse processo. Na altura cachorrinha, enquanto a tutora cuidava dos bebés felinos, ganhou a sua amizade e confiança, passando a protege-los de outros gatos estranhos que se aproximavam. Foi ela que os atraiu para as armadilhas que Cátia tinha a postos.

O tempo foi passando e o amor pelos bichinhos foi crescendo. Houve a necessidade de lhes proporcionar confortos básicos. A prioridade foi a construção de um abrigo temporário. Inicialmente “tínhamos feito à nossa maneira. Mas o plástico já estava a deteriorar. Vimos que o senhor Rui estava a fazer o telhado dele e a Isabel cravou-o para fazer o nosso”, referiu entre gargalhadas Ana Dias. Cuidar destes animais começou a ser um trabalho comunitário que ultrapassou as cuidadoras. Grande parte dos alimentos são doados por vizinhos.

Quando Rogélia colocou a ração nas tigelas, a primeira aproximar-se, timidamente, foi a gata de pelo malhado Tartaruguinha, seguida dos irmãos Blacky e Noireau. A ninhada contava com mais um gato, Thai, que morreu
atropelado. Infelizmente, este acaba por ser o destino de muitos animais que vivem na rua. Muitos ficam gratos pelo trabalho realizado, no entanto, os envenenamentos, a destruição dos abrigos e o abandono de gatos domésticos junto destes, fazem parte do quotidiano das que se dedicam à proteção destas vidas.