O AMOR DE QUEM CUIDA

A paixão pelos peludos de quatro patas, fê-la tomar a decisão de dedicar a vida a cuidar e a salvar vidas. O local que escolheu para o fazer foi Campolide. Vinda para a freguesia decidiu ficar e mais tarde abriu a sua clínica veterinária. Quem a conhece sabe que o seu profissionalismo reside também na sua bondade para com os seres humanos.

Fotos: Mariana Branco | Texto: Diana Correia Cardoso

Joaninha é das primeiras clientes do dia na clínica da Dra. Daniela Torres Dias. A idade pesa na vida desta gata de 15 anos. A insuficiência renal de que sofre e o tratamento a que é submetida, poderiam ser a causa do seu mau humor, mas a veterinária Daniela garante que as rosnadelas e as patadas são características da sua personalidade. Enquanto a consulta da Joaninha decorre, os desabafos e preocupações da sua tutora são reveladores da confiança e familiaridade que se fortaleceram ao longo do tempo.

“Em maio fiz 20 anos de trabalho em Campolide. Estes 20 anos dizem qualquer coisa”, refere a doutora que nos vai contando como foi a sua chegada à freguesia. A história começou “do outro lado”, no Alto de Campolide, concretamente na Rua de Campolide. Foi no consultório da loja de animais, Feira do Passarinho, que Daniela atendeu os seus primeiros pacientes. A então jovem gatinha Joaninha foi uma delas.

Em janeiro de 2019 a loja fechou e surgiu um novo desafio: encontrar um novo espaço para estabelecer a sua própria clínica. Daniela decidiu continuar na Rua de Campolide, no lado oposto, abrindo o seu espaço – a Vet Campolide – para lá da Rua Marquês da Fronteira.

O local de trabalho mudou, mas os fregueses continuaram fiéis. “Há clientes que dizem: só a doutora para me obrigar a vir para este lado”, revela entre risos. “Campolide tem este ar familiar, de bairro. Já me sinto parte de Campolide. Já sou Campolide”, diz com comoção, “é um espaço em que me vejo e revejo. A maioria das recordações, das memórias, das pessoas que conheço estão aqui”.

A dedicação para com os animais transborda as portas do seu consultório. A médica colabora com a Junta de Freguesia de Campolide na esterilização de gatos de rua. Além disso, revela também um grande sentido de humanidade para com as pessoas. Numa altura em que ir ao veterinário ainda é “um luxo” para muitas famílias, afirma que nunca deixou de atender nenhum caso. Na sua opinião, desde que entrou na profissão houve progressos relativos ao bem-estar animal, mas alguns cuidados básicos, como as vacinas, não são assegurados.

Embora a condição económica dos tutores tenha um grande peso no bem-estar dos animais, também é uma questão de mentalidade. “Em Campolide há casos de abandono e maus tratos”. Ao contrário do que se pensa, os maus tratos não se reduzem “só a não dar comida, são também o não proporcionar o mínimo de bem-estar. Deixar um animal todo o dia sozinho num quintal, mesmo que tenha acesso a água, sem um toldo” é um caso de mau trato, assim como “não lhe fazer uma festinha, deixando-o num canto”.

Os animais “são afetuosos e precisam de miminhos. A comida também é importante, mas eles querem mais um dono que goste deles, que esteja com eles, que passeie e faça festinhas”, conclui. A Joaninha é um exemplo, “a dona tem uma paciência monstra, já levou N dentadinhas mas não haveria essa dedicação se a gata não retribuísse” o amor que lhe é dado.