O MATEMÁTICO DAS IDEIAS POÉTICAS

Foto: Mariana Branco

Hoje reconhecido como um dos mais importantes matemáticos portugueses, José Anastácio da Cunha foi denunciado à Inquisição, a 1 de junho de 1778, acusado de se relacionar com protestantes ingleses, de ler “autores considerados perigosos”, como Jean-Jaqcques Rousseau, Voltaire ou Thomas Hobbes, figuras que defendiam o iluminismo.

Nascido em Lisboa, a 11 de Maio de 1744, cientista, matemático, militar, mas também poeta, tradutor e professor, temiam-lhe a influência e a participação na propagação de novas ideias. O resultado foi uma condenação à reclusão, durante três anos, por heresia.

Estudou Gramática, Retórica e Lógica até aos 19 anos, alimentando o gosto pela Física e Matemática. Tinha apenas 20 anos, quando foi nomeado Tenente do Regimento de Artilharia do Porto. Aquartelado na Praça de Valença do Minho, contactou vivamente com oficiais protestantes ingleses, onde encontrou ideais de tolerância e abertura de espírito, que viriam a ditar o seu percurso científico e poético.

Aos 25 anos (1769), criou um importante documento científico, a Carta Fisico-Mathematica sobre a Theoria da Polvora e, quatro anos depois, foi escolhido pelo próprio Marquês de Pombal para o cargo de lente (o actual Professor Catedrático, o topo de uma carreira académica), na Faculdade de Mathematica, em Coimbra.

Toda a sua poesia foi impressa a título póstumo, embora ainda tenha conseguido ver publicar as suas traduções de clássicos gregos e romanos ou dos ingleses Alexander Pope (1688-1744) e William Shakespeare (1564-1616). Nas poesias daquele aluno da escola francesa (José Anastácio da Cunha) há um colorido de sentimento delicado, triste e meigo que não pertence à filosofia rançosa dos seus contemporâneos”, escreveu Camilo Castelo Branco, no 2º volume do seu Curso de Literatura Portuguesa. Sobre a sua vida e obra, abordando sabiamente a vertente literária, escreveu também Aquilino Ribeiro o livro Anastácio da Cunha – O Lente Penitenciado. Publicado em 1938, pela Bertrand. Em alguns alfarrabistas ainda se vai encontrando…

Também na sua vida amorosa, o matemático e escritor desafiou hábitos enraizados. Em 1772 apaixonou-se por Margarida Lopes, mulher quase analfabeta (terá sido ele quem lhe ensinou a escrever). Como se não bastasse, foram viver juntos, sem serem casados. O escândalo durou até o ano seguinte, com a partida dele para Coimbra.

Em 1786 adoeceu gravemente e faleceu a 1 de janeiro de 1787. Como alguns historiadores destacam, muitos dos que o afrontaram, elogiaram-no depois de morto e à sua mãe, Jacinta Inês, foi mesmo concedida uma pensão anual de 100 mil réis, pelos serviços prestados por seu filho na Universidade de Coimbra. Como esse dinheiro lhe teria feito falta nos últimos anos de vida!