PRESERVAR LAÇOS E AJUDAR A CRESCER

A um ano de completar o primeiro centenário, o lar que acolhe crianças e jovens em situação de risco em Campolide, em tempos conhecido como “Casa Azul”, passa agora despercebido. Camuflada entre o edificado, longe dos olhos da maioria, ao longo dos anos a Fundação continuou a levar a cabo a sua missão: salvar vidas.

Márcia, jovem guineense de 27 anos é a utente mais velha da Fundação António Luís de Oliveira (ALO). Sem família no país, depois de dois anos na instituição, descobriu-se que a sua identidade era falsa, estando ilegal em Portugal. O sucedido teve de ser comunicado às autoridades competentes, que lhe cessaram a medida de proteção. Perante as limitações físicas, cognitivas e os graves problemas de saúde de Márcia, a Diretora Técnica, Sílvia Barros, recusou retirá-la da Fundação. “Enquanto não houver resposta legal não a vou por na rua. As pessoas não são números”, desabafou indignada com a situação.

Este caso é uma exceção, uma das muitas que vão surgindo. Atualmente moram 25 crianças no lar – 14 raparigas e 11 rapazes -, todas retiradas aos pais. A capacidade é de 27 crianças, mas os recursos financeiros são insuficientes para ter as vagas todas preenchidas. Os jovens têm idades entre os 6 e os 18 anos. No entanto, tal como Márcia, o mais novo da casa também foge aos parâmetros pré-definidos.

ACOLHIMENTO DE IRMÃOS

Falamos de Miguel, o bebé de 24 meses que faz a alegria da casa. Sofrendo de maus tratos pela família, ele e os dois irmãos mais velhos, receberam uma medida de proteção. Cumprindo o legado deixado à instituição pelos seus fundadores – de não separar irmãos – privilegiando o seu acolhimento, foram feitos os possíveis e impossíveis para que os três ficassem na Fundação. Um facto que Sílvia Barros considera uma grande conquista.

O acolhimento de fratrias entrou nos estatutos da instituição aquando da sua criação. Onde agora se encontra o número 173C da Rua Marquês da Fronteira, foi em tempos a residência de António Luís de Oliveira e Elvira Carolina do Nascimento Oliveira. Como Elvira não podia ter filhos, decidiu juntamente com o seu marido acolher um grupo de crianças. O grande património do casal, oriundo de bens no Brasil, permitiu a constituição da casa, que recebeu o nome de António Luís de Oliveira, em sua honra.

Em 1923, a “Casa Azul” recebeu oficialmente os primeiros jovens, órfãos retirados das ruas. Em testamento, a fundadora expressou que era seu desejo que a casa pudesse dar preferência ao albergue de irmãos. Elvira, professora de instrução primária, dedicava-se a ensinar essas crianças a ler e a escrever. A Diretora Técnica refere que esse é outro dos legados que hoje permanece.

“VIDAS CURTAS, MAS INTENSAS”

Os utentes da instituição vêm principalmente da área metropolitana de Lisboa. Chegam com uma história de vida cheia de perigos e riscos, marcada por violência, negligência familiar e abandono. No seu seio familiar há ausência de cuidados primários, como os direitos à educação e saúde. Depois da intervenção das autoridades competentes no sentido de tentar alterar o parâmetro de comportamento, se as condições do menor não se alterarem, é retirado do seu meio habitual de vida, que pode ser uma “família como conhecemos, ou não”, explica Sílvia Barros.

Os casos envolvem sempre pobreza económica, que impossibilita as famílias de proverem as necessidades básicas. Associada a esta problemática há sempre questões de violência doméstica, violência direta sobre as crianças, negligência emocional e psicológica e condições de salubridade paupérrimas. “Há exemplos de famílias que vivem num espaço de 30 m2 com a mãe, o pai, os avós, a irmã mais velha, que já tem filhos.”

A maior parte dos acolhimentos têm esta problemática: são vidas curtas, mas intensas e com histórias que a maior parte de nós nem imagina”, prossegue a Diretora. As mazelas ficam para a vida. Os menores ficam com perturbações a nível da sexualidade, com sensação de abandono e alguns não sabem sequer onde fazer as suas necessidades básicas. Nas suas famílias há ausência normativa do limite, que é fundamental para o desenvolvimento humano.

As crianças chegam ao lar fragilizadas, por vezes contrariadas por serem retiradas à força das suas famílias. Porém, o objetivo do acolhimento nunca é cortar os laços familiares. Por isso, Sílvia Barros defende um “processo o mais sereno possível, para não encher as crianças de dúvidas e de medos. O momento tem de ser securizante”.

CASOS DE SUCESSO

Quando chegam, ficam 5 a 10 dias para perceberem as rotinas e regras da casa e é lhes designado um técnico e um educador que as acompanham nos primeiros dias. É também feito um diagnóstico para perceber se conseguem fazer tarefas simples, como tratar da sua higiene diária. Outra das preocupações iniciais é tentar saber os gostos do jovem acolhido. É distribuído um questionário para saber, por exemplo, a cor favorita e se existe algum desejo que queiram ver concretizado. Depois é lhes dada uma mochila de boas-vindas, um pequeno miminho. Todos os jovens no seu quotidiano têm ainda direito a uma atividade complementar, física ou lúdica para preencher os tempos livres.

Aos 18 anos, os acolhidos podem manifestar a sua vontade de abandonar a casa. Em muitos casos, a medida pode ser estendida até aos 21 ou 25 anos. Constata-se que, apesar dos maus-tratos e abusos vividos, tendem a regressar às suas famílias. “Tenho o sonho de que uma casa de acolhimento possa ser uma família, mas tenho consciência que não há famílias com 25 pessoas à mesa”. Ou seja, é necessário “proporcionar experiências diversificadas como ser humano e não só em grupo. Há necessidades para além da alimentação que devem ser providas”, conclui Sílvia.

Muitos acabam por ser casos de sucesso. As crianças transformam-se em adultos, vão para a universidade, arranjam o seu primeiro trabalho, mais tarde formam uma família. Dentro da Fundação há quem nunca tenha desistido de sonhar. Fábia, de 17 anos é um desses exemplos. Já tem a sua vida delineada: ser jogadora profissional de andebol e como plano B, comissária de bordo.

*todos os jovens referidos no artigo têm nomes fictícios, para sua proteção.